O Estácio dos Bambas e do Samba


Largo do Estácio: década de 1920. Entre o Morro de São Carlos e a Praça XI

A EVOLUÇÃO DO BAIRRO ESTÁCIO DE SÁ

Na primeira década do século XX, as obras de remodelação da cidade do Rio de Janeiro promovida pelo Prefeito Pereira Passos, conhecidas como o "bota-abaixo", obrigaram a população que habitava os velhos cortiços a subir os morros da cidade em busca de moradia. O Morro de São Carlos foi um dos preferidos devido à sua proximidade do centro da cidade. O antigo caminho de Mata-Cavalos, então, viu passar levas de pessoas oriundas das mais diversas procedências, entre elas aquelas que formavam verdadeiras colônias de descendentes de escravos das mais diversas nações africanas que povoavam o Rio de Janeiro. A favela unia povos que o sectarismo religioso mantinha afastados quando moravam nas cabeças-de-porco da velha cidade colonial e esta união misturou num mesmo espaço negros de origens banto, iorubá, muçulmano (muçurumi) e outros povos de origem africana também procedentes de diversos estados do País. E isto foi fundamental para que ali, no Largo do Estácio - para onde convergia todo esse povo expulso pelo "bota-abaixo" -, que as culturas afro-brasileiras puderam se mesclar criando a base da moderna música popular brasileira: o Samba.


Escadaria do Morro de São Carlos na década de 1930 (A. Malta)

Não somente povos de origem africana foram morar no Morro de São Carlos. Trabalhadores menos qualificados, empregadas domésticas, vendedores ambulantes, trabalhadores autônomos que, a exemplo dos antigos negros de ganho, vendiam seus serviços sem qualquer vínculo trabalhista, e outros. Entre esses "outros", alguns membros de uma categoria não muito bem vista pela sociedade, que batalhavam ali pertinho, na zona do Mangue, que para o Estácio e Morro de São Carlos também imigraram. Com elas, vieram os malandros, rufiões e gigolôs. O bairro Estácio de Sá ganhava nova dimensão.


Visão lateral da subida do Morro de São Carlos, década de 1930

O COMPLEXO DE FAVELAS DO ESTÁCIO

As comunidades do Estácio são consideradas as favelas mais antigas da Cidade do Rio de Janeiro, sendo que sua ocupação remonta ao início do século XX, época do "bota-abaixo", incrementada com o deslocamento do povo que vivia no Morro do Castelo, demolido na década de 1920, e pela população desalojada com as extinções de ruas para a construção da atual Avenida Presidente Vargas, na década de 1940. São Carlos, Mineira, Zinco, Larguinho, Querosene, Fogueteiro, Coroa, Turano, Fallet, Prazeres e Escondidinho formam hoje o complexo de favelas do bairro Estácio de Sá.

O bairro do Estácio foi ocupado inicialmente por imigrantes italianos, loteamento feito pelos herdeiros da família Santos Rodrigues, que ali tinha uma chácara. Posteriormente, pessoas que foram despejadas de suas casas no centro da cidade ocuparam o Morro Santos Rodrigues. Com o passar do tempo, levas de imigrantes de todas as partes do Brasil escolheram o Estácio para suas moradias no Rio de Janeiro. Às comunidades negras agora somavam-se as tradições populares nordestinas e seus folclores. O Estácio era um manancial de culturas.

O lugar, que era uma verdadeira metrópole ao reunir num mesmo espaço gente das mais variadas procedências, soube unir essas culturas e extrair de cada uma delas os elementos que as distinguiam para gerar uma arte única, suis generis, juntando numa mesma melodia o sensual toque ijexá, a dançante batida dos atabaques da curimba banto, a vibrante sonoridade das caixas de guerra, que davam um som de marcha próprio para os desfiles dos blocos, e as marcações dos surdos, estes dois últimos instrumentos trazidos pelos negros que faziam parte de bandas militares. O Estácio se tornou o espaço democrático para onde todos convergiam.

O SINCRETISMO PROMOVIDO PELO SAMBA

O som que surgia no Estácio ecoou na vizinha Cidade Nova, penetrou nos salão e terreiro de Tia Ciata na Praça XI, atingindo toda a comunidade baiana que se reunia em torno de sua famosa ialorixá. Calando fundo na alma da então "elite" da comunidade negra da cidade, o samba que nascia no Largo do Estácio atraiu seus filhos mais ilustres, como o jovem Heitor dos Prazeres que, na década de 1920, ficou conhecido como Mano Heitor por andar em companhia de bambas do Estácio, como Ismael Silva, Paulo da Portela, Bide e outros. Esta nova música popular brasileira levou-os ao encontro de outras comunidades, também negras, que sintetizavam a alma brasileira. Eram os orixás da Bahia sincretizando-se com a nascente umbanda carioca. E não somente os membros da comunidade negra. Artistas e intelectuais que freqüentavam a casa de Tia Aciata, como Noel Rosa e o misto de cronista e músico Almirante, também foram seduzidos pelo som mágico que nascia no Estácio de Sá, passando a fazer dos cafés do Largo do Estácio seus pontos de encontro.

A partir daí, o Estácio ficou conhecido como celeiro de bambas, de onde também surgiram Moreira da Silva, Luiz Gonzaga Júnior, Luiz Melodia, Dominguinhos do Estácio e outros bambas que nasceram ou fizeram do bairro lugar de inspiração para seus versos.

Heitor  dos Prazeres